FRANKENSTEIN E FAUSTO: APROXIMAÇÕES E RUPTURAS

 

Marília Mattos - UFBA

 

 

O conceito de mito – associado tradicionalmente à dimensão do sagrado – é revisto e ampliado na contemporaneidade, que passa a reconhecer suas manifestações profanas, frutos da modernidade.

Este trabalho vem de uma reflexão mais profunda a respeito de Frankenstein enquanto mito moderno, que será aqui comparado ao mito de Fausto.

Ian Watt, em Mitos do individualismo moderno, busca compreender como a modernidade produziu seus próprios mitos e em que estes diferem de seus antecessores clássicos. Para tanto, elege quatro eminentes personagens da literatura ocidental moderna: Dom Quixote, Fausto, Dom Juan e Robinson Crusoé.

O autor justifica essas escolhas:

 

É muito fácil dizer do que tratam esses mitos, seus enredos básicos, suas duradouras imagens mostram os protagonistas envolvidos de forma exclusiva com cada uma das aspirações características do homem ocidental. Cada um deles corporifica uma arete e uma hybris, uma excepcional bravura e um ruinoso descomedimento, em esferas de ação de particular importância na nossa cultura. Dom Quixote, a generosidade impetuosa e a cegueira limitativa do idealismo cavalheiresco; Dom Juan, possuído e ao mesmo tempo atormentado pela idéia da ilimitada experiência com as mulheres; Fausto, o grande conhecedor, cuja curiosidade, sempre insatisfeita, acabará por levá-lo à danação[1].

 

Para Watt, estes personagens – à exceção de Robinson Crusoé – têm em comum as energias positivas e individualistas do Renascimento, buscando os caminhos escolhidos por eles próprios e diferentes dos outros. Por isso, conclui, entram em choque, tanto ideológica quanto politicamente, com a Contra-Reforma e são, conseqüentemente, punidos.

Já Crusoé, personagem romântico, é descrito como sendo um porta-voz das novas concepções, posteriores à Contra-Reforma e já sem o elemento punitivo, resultado do crescente domínio do individualismo. Tais mudanças acabaram por gerar, ainda segundo Watt, uma visão mais simbólica e transcendental dessas personagens, que no século XIX tornaram-se universais. Sua observação a respeito da natureza desse status universal é fundamental para que possamos compreender Frankenstein enquanto mito:

 

Dois comentários sobre a natureza desse status. Em primeiro lugar, é obviamente menos sagrado, menos peremptório e menos universalmente aceito do que são os mitos nas sociedades iletradas. Nenhum dos quatro combina por inteiro com as descrições de mito feitas por Malinowski, para quem ele ‘expressa intensificações e codifica crenças... não é um conto ocioso, mas uma força ativa cuidadosamente invocada; não é a explicação intelectual de uma imagem artística, mas uma carta pragmática da fé primitiva e da vontade moral’. Em segundo lugar, é verdade no entanto que as figuras examinadas neste livro adquiriram um status ligeiramente diverso daquele alcançado pelos personagens da maioria dos romances e peças: Fausto, Dom Quixote, Dom Juan e Robinson Crusoé existem numa espécie de limbo, onde talvez não sejam vistos como personagens verdadeiramente históricos, mas também não como simples invenções de natureza ficcional.[2]

 

A história de Frankenstein filia-se a uma antiga e vasta linhagem de mitos e narrativas literárias que abordam o tema do conhecimento proibido. É, portanto, bastante sintomático que o subtítulo do romance seja “O moderno Prometeu” e que o mesmo dialogue de modo tão explícito com O Paraíso Perdido, de John Milton e, não tão abertamente, com o mito de Fausto e suas diferentes versões. Frankenstein, assim como Fausto, tem sua origem em alguns dados verídicos. Radu Florescu, em seu livro denominado Em busca de Frankenstein[3], sugere que Mary Shelley não criou sua história baseada inteiramente em sua imaginação, pois havia uma história (ou lenda) acerca do castelo maldito da família Frankenstein, onde um inescrupuloso alquimista realizava diabólicas experiências, buscando animar os mortos. O historiador afirma, baseado em inúmeras provas por ele recolhidas, que o casal Shelley teria visitado este castelo em sua passagem pela Alemanha, oportunidade em que tomaram conhecimento da lenda. Verdade ou não, o fato é que a própria Mary Shelley, ao narrar a história menciona “contos alemães de fantasmas”, o que aproxima Frankenstein a Fausto em mais um aspecto: a origem germânica.

Roger Shattuck, em seu fascinante livro denominado Conhecimento proibido analisa tanto na literatura quanto na ciência aspectos deste tabu. Lá encontramos um capítulo exclusivamente dedicado a Fausto e Frankenstein, por considerá-las histórias correlatas.

Eis o que Shattuck pontua enfaticamente:

 

creio que o que nos atrai nessa ‘tragédia’ como Goethe a chamou é o que ela tem de comédia. No entanto, a obra de Goethe publicada em duas partes, não evitou o desenvolvimento da lenda em outras direções e por outros autores. Entre o primeiro volume (1808) de Fausto e o segundo (1833), surgiu em Londres uma novela anônima chamada Frankenstein, ou o moderno Prometeu. Nesse livro, notável, concebido aos dezenove anos, Mary Shelley assimilou uma ampla gama de mitos clássicos e modernos, de Prometeu ao Satã de Milton e à tábula rasa de Locke. E, mais importante, o tema faustiano da ‘mordida da serpente’ do conhecimento é central em sua obra. Há muitas razões para que esses dois livros sejam lidos juntos[4].

 

Considerando, entretanto, que o propósito deste trabalho é apontar os traços que distinguem Frankenstein como mito moderno, trataremos de Fausto apenas à medida que este nos facilite atingir nosso objetivo.

Shattuck considera que Mary Shelley, escrevendo pouco depois do primeiro volume de Fausto, rejeitou tanto o Adão de Milton quanto o de Goethe. Imaginou não apenas, pontua, “um novo Adão – uma criatura-monstro – impelida ao desespero e à depravação –, mas também à hybris prometéica que levou à sua criação – não por um deus, mas por um presunçoso mortal. É difícil não ler o romance de Mary Shelley como uma réplica ao Fausto”[5].

O que, para nós, parece inquestionável é o fato de Frankenstein ser um mito. Basta perguntar a qualquer pessoa quem é Frankenstein que ela inequivocamente responderá: um monstro.

A mais simples e sintética definição de mito existente é: uma história que todo mundo sabe. Mas será realmente que todos sabem? Quando afirmam ser Frankenstein um monstro, estão, no mais das vezes, pensando no personagem imortalizado por filmes hollywoodianos, os quais – pessoalmente não conheço nenhuma exceção – são, em sua grande maioria, nada fidedignos ao romance. Jean Jacques Lecercle[6] vê nisto uma denegação freudiana, um recalque da origem. O mesmo costuma passar se perguntarmos a quem conheça o monstro sobre Mary Shelley. Dificilmente essa pessoa saberá. Tudo isso sem mencionar a denegação mais aberrante e freqüente: a atribuição do nome do criador, Frankenstein, a sua não nomeada criatura, pois fôra excluída do rol dos seres humanos. Lecercle considera tais conhecimentos denegados como um sintoma que designa um mito, pois o protagonista eclipsou sua autora; a criatura, seu Criador; e o filme, o livro que o originou. E assim suas versões multiplicam-se em filmes de terror, ficção científica, histórias em quadrinhos e até mesmo (opinião bastante pessoal) na ciência, através das experiências de clonagem.

Seria praticamente impossível enumerar tosas as versões de Frankenstein, mas elas comprovam que estamos diante de um mito, cuja origem – como soe acontecer com os mitos – é desconhecida ou, como quer Lecercle denegada. A história da história constitui, como já foi dito, um mito à parte. Conhecida, em geral, por alguns poucos interessados nos bastidores da literatura universal e que, muitas vezes, nem leram Frankenstein, permanece ignorada por aquela maioria, para a qual o monstro é bastante popular.

Mas, sendo Frankenstein um mito, de que mito se trata? Lecercle propõe três respostas: é uma repetição do mito de Fausto; uma versão do mito de prometeu; e (esta bastante audaciosa) é um mito original “um de nossos mitos modernos”[7]. A primeira resposta se justificaria pelas semelhanças entre o Dr. Fausto e o Dr. Frankenstein, no tocante à desmedida sede de poder e conhecimento. Além disso, Lecercle vê pontos comuns entre o monstro e Mefisto, quanto à sua potência, maldade e “tentadora” eloquência[8]. Mais pertinente ainda é o mito de Prometeu, ao qual a autora alude no subtítulo. Dr. Frankenstein seria o arrogante Prometeu que, em lugar do fogo, usurpou de Deus o poder criador, e o monstro, o equivalente do abutre que o atormenta. Porém, ele discorda dessas duas alternativas e afirma ser a terceira a correta. Para Lecercle, Frankenstein não é nem Fausto nem Prometeu, mas um mito original – embora blasfemo – de criação. Ele desenvolve longa e convincentemente sua tese, demonstrando que podemos encontrar em Frankenstein algumas características básicas de um mito religioso de criação: relata o surgimento do cosmos a partir de um caos primitivo; narra a criação arbitrária a partir do nada. Freqüentemente essa criação é sexualizada e o ato da criação é um ato sexual que adquire valor cósmico; enfim a criação é seguida de uma luta entre dois princípios sexuais ou morais ou entre duas gerações...”[9].

Embora sua brilhante argumentação nos leve irresistivelmente a concordar com ele, divergimos de Lecercle quanto à exceção dos mitos de Prometeu e Fausto, os quais são referências inquestionáveis em Frankenstein. Enquanto sua associação a Prometeu dá-se, sobretudo, por ser Victor um herói trágico do mesmo quilate de seus correspondentes clássicos[10], com o Fausto (ao menos o de Goethe) é, em vários aspectos, por seu individualismo. Pois, apesar das semelhanças entre os dois doutores – que inclui, além das já citadas, a monomania – a hybris pela qual o Fausto de Goethe é possuído não o conduz a um fim catastrófico, como sucede a Prometeu e Frankenstein, autênticos heróis trágicos!

O individualismo exacerbado é, juntamente com o aspecto trágico do conhecimento, o motor do conflito em Frankenstein. Podemos facilmente detectá-lo tanto no cientista quanto em sua criatura e a impossibilidade de conciliá-los gera a destruição de ambos.

Em que sentido podemos afirmar ser Frankenstein “faustianamente” individualista? Novamente recorreremos a Ian Watt na esperança de responder a essas perguntas. Gostaríamos, contudo, de ressalvar que, apesar do Fausto de Goethe ser contemporâneo de Frankenstein, este, curiosamente, está mais próximo da versão renascentista escrita por Christopher Marlowe, em 1592, do que de seu colega romântico.

Esclarecemos, brevemente, que a diferença fundamental entre os dois faustos é o fato de o Marlowe ser punido com a morte, enquanto o de Goethe é salvo. E é exatamente esta danação inexorável que aproxima Frankenstein do Fausto marloweano.

 Buscaremos, na medida do possível, desvendar que forças atuaram para que Mary Shelley divergisse de seu contemporâneo, buscando a identidade de seu personagem no passado (renascentista e, mesmo, clássico).

Tanto Marlowe quanto Mary Shelley triunfaram ao retratar o que Watt considera os três temas básicos do mito de Fausto: a excitação pelo conhecimento, o entusiasmo pela beleza terrena e a danação espiritual. Em tempo: esclarecemos que, embora o monstro não fosse belo, o principal objetivo do cientista Frankenstein era criar uma raça de seres perfeitos que lhe venerariam como seu Deus.

Podemos, também, atribuir a Victor Frankenstein as mesmas características que Watt encontra em Fausto e em Marlowe: “Incansáveis vaidosos, ambiciosos, atraídos pela solidão, os comportamentos desviantes e os duros combates contra a maioria das opiniões aceitas em seu tempo, bem como pelas circunstâncias que tornavam suas vidas perigosas e frustradas”[11]. Inequívocas características do individualismo, o qual, ainda segundo Watt, é próprio da modernidade, pois antes as pessoas não se consideravam como indivíduos independentes de sua nação, cultura ou religião, as quais compunham, juntamente com seus aspectos individuais, sua identidade. Para Watt, as maiores contribuições de Marlowe ao mito de Fausto são, a escolha vocacional; a alienação acadêmica e a danação eterna. A referida “alienação acadêmica” é a crescente classe de alienados intelectuais (ou, como eram chamados, “descontentes”) um fenômeno moderno resultante do abismo existente entre as expectativas de realização profissional dos estudantes e suas reais possibilidades de trabalho.

Frankenstein enquadra-se perfeitamente nestes três tópicos: não quer ser, como pai, comerciante e segue sua vocação para as ciências naturais; não se satisfaz em ser apenas mais um médico, e quer tornar-se um novo Deus; encontra, como castigo, a danação, não podemos afirmar que eterna – por não haver indício algum de crença em uma realidade metafísica no romance de Mary Shelley, por mais extraordinária que sua história nos pareça. E eis um ponto crucial no qual Frankenstein difere radicalmente de todas as versões de Fausto: não só não há pacto algum com o demônio, como tão pouco há indicação de que haja um Deus para puni-lo ou, muito menos, salvá-lo. Sua impressionante façanha e conseqüente danação são de sua exclusiva responsabilidade. Embora a moral cristã esteja evidenciada na implacável culpa que atormenta o protagonista, o romance de Mary Shelley é emblemático de seu tempo, no qual as transformações histórico-filosóficas do racionalismo semeado pelo Renascimento encontram sua plena realização no Iluminismo, acabando por postular a morte de Deus, tematizada primeiro pela literatura e, a seguir, pela filosofia, através de Nietzsche. Abaixo transcreveremos uma passagem do livro Os filhos do barro, de Octávio Paz, por considerá-la altamente pertinente:

A consciência poética do Ocidente viveu a consciência poética como se fosse um mito, isto é, essa morte foi realmente um mito e não um mero episódio na história das idéias religiosas de nossa sociedade. O tema da orfandade universal, tal como o encarna a figura de cristo, o grande órfão e o irmão mais velho de todas as crianças órfãs, que são os homens, expressa uma experiência psíquica que recorda o caminho negativo dos místicos: essa noite escura na qual nos sentimos flutuar à deriva, abandonados em um mundo hostil ou indiferente, culpados sem culpa, inocentes sem inocência. No entanto, há uma diferença essencial: é uma noite sem desenlace, cristianismo sem Deus. Ao mesmo tempo, a morte de Deus provoca na imaginação poética, uma estranha cosmogonia em que cada Deus é a criatura, o Adão de outro Deus[12].

 

É possível que Shattuck esteja certo em ver Frankenstein como uma réplica ao Fausto de Goethe. De acordo com Watt, este não é punido pelo fato de no romantismo o individualismo não mais ser visto como algo negativo – como acontecia na Contra-Reforma – sendo, mesmo, francamente exaltado.

Baseados nas hipóteses acima, podemos conceber criador e criatura como seres antitéticos, que personificam – o cientista, os perigos do conhecimento e os valores éticos a serem preservados, pelos quais morre, salvando a humanidade – a criatura, a beleza bizarra e o narcisismo infantil tão caros à modernidade, bem como o bon sauvage que ele foi antes dos homens o corromperem é o principal objeto de desejo da nostalgia moderna.

A história do Dr. Frankenstein e sua miserável criatura reflete a crise da modernidade, apontada por Paz, em relação à idéia de Deus. Tal fato permite-nos reconhecer em Frankenstein – além do já referido mito de criação – um mito que conta a morte de Deus no ocidente e como os seus cientistas na modernidade (porque não dizer na contemporaneidade?) tentam vorazmente ocupar o seu lugar, confirmando a constatação do filósofo Tarcísio Moura de que a ciência só destrói um mito criando outro ou de si mesma.

 

 

Referências Bibliográficas:

 

FLORESCU, Radu. Em busca de Frankenstein. São Paulo: Editora Mercúrio Ltda, 1998.

LERCECLE, Jean Jacques. Frankenstein: mito e filosofia.Rio de janeiro: José olympio, 1991.

PAZ, Octávio. Os filhos do barro.Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1974.

SHATTUCK, Roger. Conhecimento proibido. São Paulo: Editora Schwarcz Ltda, 1998.

SHELLEY, Mary. Frankenstein, or the modern Prometheus. Penguin Books, 1985.

WATT, Ian. Mitos do individualismo moderno. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1997.



[1] Citado por Ian WATT em Mitos do individualismo moderno. p. 13.

[2] Idem, p. 15.

[3] Radu FLORESCU. Em busca de Frankenstein. São Paulo: Editora Mercúrio Ltda, 1998.

[4] Roger SHATTUCK. Conhecimento proibido. p. 98.

[5] Idem, p. 99.

[6] Jean Jacques LECERCLE. Frankenstein: mito e filosofia.

[7] Idem, p. 22.

[8] Idem, p. 22.

[9] Idem, p. 23.

[10] Assunto que tratamos na monografia intitulada Frankenstein e o criador trágico.

[11] Ian WATT. Cf. Nota 2. p. 43.

[12] Octávio PAZ. Os filhos do barro.p. 73.